notas do curso “arte sem medo”, da seiva, ministrado pelo andre dahmer em maio/26.


"arte é feita para os desobedientes e petulantes."

a premissa central desta aula é o resgate da expressão pura. o desenho precede a escrita; é uma manifestação rústica e natural do nosso mundo interior, e não uma mera obrigação de representar fidedignamente coisas que já existem.


arte desobediente

  • a “arrogância” do artista: é preciso ter a petulância de assumir que faz arte. abandonar o discurso de “faço só por hobby”. a vida é única, faça valer a pena: ponha no mundo o livro que quer escrever, a pintura que quer fazer.
  • desapego da forma: desenvolver um traço livre do medo e da forma engessada é coisa de mestre. o objetivo é viver a desobediência total na arte.
  • respeito à própria natureza: tem a mão pesada? respeite isso. tem a mão leve? gosta de formatos grandes ou pequenos? abrace. é a filosofia do zen budismo aplicada à arte: está com fome, coma; está com sono, durma.
  • o erro não existe: não há erro no desenho ou na pintura. o erro é, na verdade, o melhor professor, pois é ele quem sedimenta o conhecimento.
  • verdade e prazer: todo desenho é bom quando é feito com verdade. o motor da criação deve ser a diversão e o prazer. é melhor fazer muitas coisas despretensiosas do que tentar fazer “uma obra grandiosa”.
  • a força do afeto (e das sombras): direcione o trabalho para onde está o afeto. o “tema de afeto” não precisa ser apenas o que se ama; sentimentos densos como raiva, medo, ódio e ansiedade também são motores de criação poderosos.

técnicas e conceitos

  • mão mole: regra de ouro. não desenhe com a mão dura ou tensa. comece sempre soltando a mão, desenhando com intuição e sem medo de passar vergonha.
  • menos é mais & gestalt: no desenho, a gestalt (psicologia da forma) nos ensina que o cérebro humano completa lacunas visualmente. por isso, “menos é mais”: você não precisa desenhar cada detalhe para que quem observa entenda a imagem.
  • linha contínua (técnica de picasso): exercício de soltar a mão desenhando sem tirar a caneta do papel, criando uma conexão fluida e ininterrupta entre o cérebro e o traço.
  • ponto de fuga e perspectiva: ferramentas para criar a ilusão (fingir) profundidade e adequar a escala dos personagens ao cenário (ex: desenhar a cidade em perspectiva).

materiais explorados

  • caneta, pincel e ecoline: ideais para perder o controle e fazer o desenho mais solto possível.
    • ecoline: apelidado de “aquarela de preguiçoso”. é excelente para criar meias sombras, trazer volume e plasticidade. a regra é mão mole e cabeça solta: não é para pintar certinho dentro das linhas.
  • aguada: técnica que mistura tinta (geralmente nanquim ou aquarela) com água para criar gradientes e volumes suaves.
  • kraft + guache branco + carvão vegetal: experiência de pintura rústica com tons de cinza. o carvão borra muito e o guache cria manchas intensas. ideal para entender luz e sombra sem o apego da linha limpa.

exercícios & práticas

  • 50 desenhos de mão mole: fazer 50 desenhos sobre um tema de afeto (lembrando que emoções negativas também entram aqui).
  • desenho com música: praticar o desenho contínuo (sem tirar a caneta do papel) deixando a música guiar.
  • estudo de personagem: criar um protagonista e um antagonista (com base na dinâmica clássica dos quadrinhos).
  • prática diária: desenhar um pouco todo dia, independentemente da mídia. O segredo da criação é a repetição.
  • comunidade: criar uma rede social/conta específica apenas para postar seus desenhos, montar grupos de artistas para desenharem juntos e, quem sabe, realizar uma publicação independente.

referências e inspirações

  • prakash thombre
  • jaguar (lenda do cartoon brasileiro)
  • borsotti
  • fortuna
  • angeli
  • james stevenson
  • felipe galindo
  • paul noth
  • kosuke masuda

publicações e projetos:

  • the new yorker: consumir tudo que a revista já publicou em termos de cartoons (ótimos exemplos de traço solto, ironia e uso de aguada/sombras simples).
  • museum of bad art – art too bad to be ignored: para lembrar que arte não precisa ser perfeita, apenas expressiva.