prof ruan felix

arquitetura do sabor

como cozinhar menos intuitivamente e com mais intenção?

  1. refogado base
  2. gordura
  3. temperos secos
  4. umami
  5. acidez
  6. ervas frescas uma etapa ou outra, dependendo do prato, pode não ser tão necessária, mas cada um desses andares precisa ser planejado

1. refogado base

mirepoix

mirepoix: refogado francês, a base da cozinha francesa frança foi muito boa em catalogar sabores e técnicas, mas não é a única nem a melhor gastronomia; existem outras formas, e formas tão boas quanto pra começar um prato precisa de mirepoix; na frança a base é 50% cebola; 25% cenoura; 25% salsão. qundo quiser preparos mais claros, substituir a cenoura por alho poró. na cozinha francesa não doura, sua os ingredientes. só deixa liberar os compostos aromáticos e inicia o preparo existem outras formas de se fazer esse refogado

sofrito

sofrito: variação do mirepoix, mais próximo da espanha e itália; não existe uma proporção ideal. cebola, alho, tomate, pimentão e salsinha (talo, não folhas)

divina trindade

50% cebola, 25% pimentão, 25% salsão divina trindade: culinárias cajun, creole (sul eua). junção de 3 culturas: francesa, cultura alimentar de povos escravizados e povos originários do sul dos eua. muito semelhante à cozinha brasileira: parece a junção da culinária baiana e da mineira. como uma das bases dessas culinárias é a cozinha francesa, tem seu próprio mirepoix; em vez de cenoura, pimentão verde

bhuna masala

bhuna masala: refogado indiano. jogam cebola, alho, tomate, gengibre e depois os temperos secos; junto com a umidade do refogado vira uma pastinha. a partir dessa pastinha começa qualquer preparo da comida indiana

cortes

refogado: corte bem pequeno superfície de contato: libera açúcares e compostos aromáticos mais instantaneamente dissolução de estrutura: permite que vegetais se desintegrem no preparo caramelização de açúcares: expõe mais as células dos vegetais, liberação mais rápida de água, caramelização mais uniforme

corte pequeno (brunoise): construções rápidas, molhos delicados. construção de sabor, não faz parte da textura do prato corte médio: construções de médio prazo corte grande (mirepoix de caldo): construções de longa duração, caldo base cortes maiores, que mantenham a estrutura até o final do prato

ordem: cebola primeiro pra soltar a água, quando começar a ficar translúcida antes de dourar adicionar o alho; quando estiver quase dourando, os outros ingredientes que não precisam dourar

gordura

importantíssimo na cozinha frança: manteiga itália, espanha: azeite

um bom molho de tomate não é só tomate e água (fino, ácio, aguado), mas tomate, água e gordura (encorpado, equilibrado, brilhante)

solubilidade: água x gordura condução de calor: temperaturas acima de 100º, caramelização, distribuição adequada do calor textura e sensação palatável (mouthfeel): revestimento da língua, aftertaste equilíbrio de elementos: “arredondamento” de arestas, suavizar, equilibrar

vegetais têm pouca biodisponibilidade de gordura precisa adicionar gordura gordura é sabor os compostos dos alimentos se dissolvem melhor na gordura do que na água gordura faz transferência de calor gradativa, comida queima mais devagar gordura aguenta muito mais calor que a água, transfere o sabor e carameliza gradativamente na maionese, quando existe um agente emulsificante + gordura os ingredientes grudam

tipos de gordura manteiga: doce, aveludado, lácteo. tem um sabor bem profundo e marcante, principalmente para quem não tem costume de comer dendê: profundo, persistente azeite: frutado, herbáceo óleos vegetais: invisível. gordura neutra que não se sobressaia ao sabor final

comida indiana: ghee (manteiga clarificada), óleo vegetal, óleo de coco óleo de coco desodorizado não tem gosto de sabão ruan usa óleo de girassol pra refogados e de algodão pra frituras (deixa mais crocante que qualquer outro óleo)

temperos secos

toasting especiarias em estado de dormência, despertam com calor e gordura entram no início do preparo, logo após os vegetais de base ponto de queima momento certo de colocar: precisa do toasting, jogar no começo do preparo na gordura. precisa aquecer na gordura para liberar melhor os compostos aromáticos semente de mostarda semente de feno grego cheiro do curry essas duas sementes dizem a hora de colocar os outros ingredientes porque começam a pipocar na panela nos secos tem que ter o feeling de não deixar queimar antes de colocar os outros ingredientes

especiaria: elementos únicos tempero: combinação de duas ou mais especiarias zaatar: a erva zaatar não tem no brasil, então o tempero que temos no brasil é uma combinação de ervas pra chegar perto do sabor do zaatar sumagri: cítrico, são baguinhas vermelhas azedinhas; eram usadas nos preparos antes do limão estar disponível. zaatar tem que ser um pouco azedo. por causa disso, zaatar é finalização, não se usa no início do preparo couve flor assada, quando já está caramelizada joga o zaatar por cima. usar o calor da comida saída do forno para ativar os compostos do sabor sem queimar

cardamomo é uma especiaria bem potente, não se usa muito na cozinha latina. usar mais em receitas indianas, mediterrâneas cada cozinha tem sua própria identidade de temperos, gorduras etc

umami

conhecido como o quinto sabor, mas não entra na mesma categoria que os outros 4 sabores faz com que se perceba melhor os outros 4 sabores; amplificador de sabor

profundidade de sabor ácido glutâmico: glutamato, inosinato, guanilato associação: aumento de salivação, ampliamento de sabores, sensação de corpo e preenchimento, permanência gustativa, arredondamento de sabores agressivos presente em: alimentos in natura, maturados, fermentados, desidratados

carne é o alimento que tem mais ácido glutâmico, por isso é tão saborosa outros alimentos vegetais também têm - tomate é o vegetal com mais concentração de ácido glutâmico; tomate seco tem umami muito concentrado - sugestão: pastinha de tomate seco

queijos maturados, algas, tomates, carnes curadas, cogumelos, batatas, ervilha

o glutamato serve como muleta quando o preparo não tiver a possibilidade de incluir umami com ingredientes quem come carne e queijo todos os dias já consome uma quantidade alta de ácido glutâmico shoyu barato tem ácido glutâmico adicionado; shoyus com fermentação longa têm ácido glutâmico desenvolvido no processo fermentativo

sinergia química

combinar alimentos ricos em umami não faz uma soma de sabor e sim uma multiplicação não vai ficar gostoso, vai ficar muito gostoso batata frita com ketchup: tríade perfeita (acidez do tomate, gordura da fritura e umami da batata e do tomate) massa com ragu de carne: umami no trigo (pouco mas tem), umami no tomate, na carne e no queijo. 4x umami samosa: batata e ervilha têm concentrações consideráveis de umami; fritura (gordura). samosas sempre vêm com um chutney ou outro molho que traz a acidez

acidez

brilho e contraste limpador de paladar: estimula a salivação, “limpa” a gordura da língua, prepara para a próxima garfada ferramenta de correção: prato pesado demais, plano/monótono demais, doce demais acidez cítrica: limão, laranja, romã, tangerina acidez acética: vinagres balsâmico, de arroz, de maçã e cana acidez láctica: iogurte, sour cream, buttercrem acidez de fermentação: vinho, picles, tucupi

momentos diferentes pra usar cada ingrediente de acidez acidez de cozimento: precisa de tempo para abrandar o sabor; para que fique só a acidez e não a agressividade do alimento: vinho e vinagre vão no início do preparo. cachaça também vai no início do preparo, pra deglaçar o prato, mas não tem acidez (é doce, vem da cana de açucar - pode ser usada pra trazer construção de sabor, mas não é ácido, deixa os alimentos mais adocicados) cítricos no fim do preparo: limão, sour cream etc tomate entra no meio porque é um ingrediente; se cozinhar mais fica menos ácido açúcar não corrige a acidez (não é alcalino); bicarbonato é o elemento mais alcalino que pode ser usado na cozinha. uma pontinha de colher de bicarbonato corrige a acidez do molho

ervas frescas

hardy (resistentes): alecrim, tomilho, louro, sálvia soft (delicadas): coentro, salsa, hortelã ervas delicadas pode usar os talos na comida cada um dos grupos entra em momentos diferentes do preparo: resistentes no começo, delicadas no final (senão perdem sabor) orégano é a única erva que funciona melhor desidratada do que fresca ervas frescas: bater com um pouquinho de água e congelar pra não perder talo no refogado, folhas no final ervas resistentes: bouquet garnir colocar um amarrado das ervas no preparo de um caldo e tirar quando achar que deu sabor o suficiente

raio-x dos pratos

moqueca baiana: refogado: cebola, pimentões, tomate, gengibre, talo de coentro gordura: leite de coco e azeite de dendê acidez: limão e molho de pimenta ervas frescas: coentro

carbonara: gordura: guanciale/bacon, gemas, parmesão/pecorino umami: parmesão/pecorino

rámen: umami: algas, dashi, tarê/shoyu gordura: óleo de gergelim, ovos ervas frescas: cebolinha refogado: dashi (não necessariamente tem acidez)

tikka masala: gordura: iogurte acidez: tomate umami: iogurte, tomate refogado: bhuna masala ervas frescas: coentro

pesto: gordura: azeite, pinoli ervas frescas: manjericão umami: parmesão substituições do parmesão: missô ou levedura nutricional (missô no pesto fusion food) pesto rosso: inclui tomate seco pistou molho francês de manjericão, azeite e alho só consegue fazer comida de fusão quando entende a função de cada elemento na cozinha

falafel + molho tarator gordura + ervas frescas falafel: priorizar fritura pra não ficar seco molho tarator: tahine + limão + alho não tem umami

nem todo prato precisa ter todos os elementos quanto mais elementos tiver, mais potência de sabor ele vai ter; mas não necessariamente precisa incluir tudo em todos os pratos